ENTREVISTA – Nascer e renascer de Jesus em nosso interior

Éderson Passos, 27 anos, além de diretor adjunto do Departamento de Infância e Juventude da CEF, é facilitador do GENTES (Grupo de Estudos do Novo Testamento) direcionado a estudantes da casa interessados em aprofundar seus conhecimentos da Boa Nova através dos textos dos evangelistas. Conversamos com Éderson sobre a simbologia e recorrência do tema “renovação” nos textos bíblicos pelo prisma espírita.

Videira – Jornal da Fraternidade – O que simboliza o nascimento do Cristo, como narrado no Novo Testamento, na nossa vida?

Imagem de Keem Ibarra

Éderson Passos – Primeiramente, o nascimento do Cristo é o choque entre a expectativa humana e o desejo do “céu”, da espiritualidade superior que nos dirige. Ele é o retrato claro de que a nossa leitura da existência não condiz com a leitura divina, pois vemos o grande salvador da humanidade, aguardado há mais de dois mil anos (para o leitor judeu daquela época), nascendo muito humilde e pobre. A própria manjedoura e todo aquele símbolo da estrebaria retratam a questão da simplicidade e da pureza expressas no campo e no Cristo envolto por animais. Portanto, o que nascimento do Cristo retratado no evangelho nos ensina é que o nascimento dele dentre de nós, em nosso ser, não será através das nossas expectativas, da nossa maneira de entender as coisas e que, muitas vezes, a gente vai querer que as coisas aconteçam de uma certa maneira, mas, para a nossa renovação, vai ser de outra, talvez contrariamente ao que a gente gostaria.

Nessa linha de entendimento, o Evangelho como um todo é muito simbólico e na visão espírita é o retrato de que o Cristo e as suas lições vão aflorando e brotando na nossa parte mais obscura, ou seja, nos nossos sentimentos mais pobres, nos vícios mais animalizados, na nossa zona mais deserta. Normalmente, quando estamos na escuridão das dificuldades, nas dores da alma é que o Cristo encontra o espaço necessário para nascer, porque a parte nobre e rica da nossa mente e do nosso tempo está ocupada com outras coisas, como o ganho, a subsistência, a comodidade, e não há espaço para o Cristo. Então, onde não damos atenção, que seria a parte emocional, a estrebaria do nosso ser, é onde ele nasce, pegando-nos de surpresa.

Videira – Então o maior empecilho que Jesus encontra para nascer em nosso coração e na nossa mente seria o materialismo?

Éderson – Exatamente. E encontramos isso como o grande símbolo das crenças orientais: a luta do bem e do mal, da luz com as trevas, etc. E, por nossa parte, podemos resumir na luta do Espírito imortal com a materialidade, meio pelo qual se expressam os vícios que nos cegam.

Videira – O que os Evangelhos nos trazem a respeito dos pais de Jesus e da família?

Éderson – Os dois evangelhos que tratam massivamente da família de Jesus são o de Mateus e o de Lucas, cada um com uma linha de abordagem diferente. Mateus utiliza mais símbolos e parábolas. No caso do evangelho de Lucas, a linha adotada é mais histórica, com um relato pautado em fatos. O que os dois deixam claro nas suas diferenças e similitudes é o função de José e Maria e como cada um ocupa um papel bem claro e bem explícito para aquele que se debruça e busca uma leitura familiar.

Maria é um exemplo muito interessante, pois não era habitual na cultura dos tempos de Jesus, dos judeus, dar destaque para a mulher. E quando se fazia isso, em momentos muito específicos e raros, eram mulheres problemáticas. Portanto a mulher era muito obliterada, muito esquecida, intencionalmente ofuscada pois o brilho estava no homem.

Já os evangelistas dão destaque tremendo para Maria no seu papel de “a mãe do Messias”, pois se o messias é o rei, Maria é a mãe do Rei, ou seja, o papel dela é de grande ênfase. E contrariamente à cultura da época em que o pai do Rei ganhava o destaque, José ganha um papel, digamos, mais escondido, mais humilde. E aí temos dois pontos bastante curiosos do papel do homem e da mulher nessa história, José e Maria, e quem explica essa linha é o espírito Humberto de Campos através da psicografia de Chico Xavier, em que ele diz que Maria tem o grande papel de representar o amor na espécie humana, o papel da mãe e da mulher amorosa, e José, no seu silêncio, tem o papel de representar como Deus opera. Ou seja, José através de seu silêncio e Maria através do amor – Deus ama através do silêncio, Ele não se mostra escancaradamente na vida das criaturas, mas sem o amor e o silêncio do criador nenhum ser se sustentaria. Portanto, temos essas duas bases, ou seja, o Pai vai operando as almas silenciosamente ao longo dos séculos e das experiências sem nós nos darmos conta e por cima disso sempre há o amor como objetivo. É o amor que vai norteando todas as nossas experiências, das felizes às tristes. Então qualquer ocorrência que surge silenciosamente na nossa existência, o objetivo principal dela foi o amor. Ela veio através do amor e o objetivo é o amor. Então, José e Maria, acima de tudo, representam a maneira do Criador agir e o objetivo do Criador – o amor.

Videira – E qual seria o exemplo de José para os homens?

Éderson – No contexto da história humana, o gênero masculino foi muito dedicado à conquista, ao espólio, ao domínio externo através da força, militarmente. E o grande exemplo de José é que o gênero masculino deve pautar a sua ação dentro do lar e mesmo que ninguém saiba o que ele faz, acima de tudo, ele deve buscar ser um bom pai. Por isso, ele busca dar a sustentação ao seu lar, ele busca ser um exemplo de comportamento e ele não busca ser destacado na sociedade, mas sim, cumprir com seu papel ali dentro, naquele grupo. Então o grande símbolo que José deixa para os homens e também para as mulheres que cumprem o papel do pai dentro do lar é o da humildade – fazermos a nossa parte sem esperar o reconhecimento das pessoas.

Videira – O que dizer sobre a virgindade de Maria?

Éderson – Do ponto de vista espírita e também de algumas linhas mais liberais da teologia e da filosofia cristã, a virgindade de Maria é um símbolo. Tanto no sentido gramatical, vamos dizer, das palavras hebraicas e aramaicas usadas nos textos e também no sentido filosófico e transcendental, retomando aquela ideia da mãe do Rei – se o Rei era alguém muito elevado, a mãe também deveria ser muito elevada. Portanto, o entendimento que se tem da virgindade de Maria, em uma leitura espírita, é de uma alma pura, ou de uma alma muito evoluída e o ganho que temos da Doutrina Espírita é a questão de que, para um espírito reencarnar ou encarnar na Terra ele necessita ter um vínculo mínimo com quem vai ter o papel de mãe. Por isso, sendo Jesus um Espírito de tamanha envergadura evolutiva, Maria necessitava ter um mínimo de vínculo afetivo e moral com ele. Assim, Maria é retratada como uma virgem, alguém puro, alguém sem mácula moral, uma mulher ilibada, um Espírito evoluído. Ou seja, esse símbolo diz respeito à sua ascendência espiritual. Humberto de Campos, no livro Boa Nova, quando descreve o desencarne dessa mulher, relata que, no mundo espiritual que rege a Terra, abaixo de Jesus, imediatamente, vem Maria. Isso quer dizer que Maria é o braço direito de Jesus, mostrando que a afinidade dessas duas almas e a ascendência dela na humanidade é algo notório, muito destacado. Além disso, ela é a grande responsável espiritualmente pelos Espíritos que vão pelo caminho do suicídio, que é descrito também, na visão espírita, como a maior dor. Então, curiosamente, para a maior dor, o maior amor – Maria.

Videira – O que podemos dizer sobre os sofrimentos e as dificuldades de ser cristão?

Éderson – Ser cristão entra em choque com uma leitura moderna da nossa sociedade, principalmente a ocidental, na qual se entende que felicidade é um estado permanentemente, sem dor ou sem sofrimento. A intenção não é buscar um masoquismo (risos), mas compreender que nem tudo precisa estar bem para que eu seja feliz. Quando nós lemos a mensagem do Cristo, em vários pontos, ela traz que o mais importante, na verdade, é a nossa postura perante as coisas independente de como elas estejam. Portanto, muitas vezes, nós vamos desejar seguir o Mestre, mas as facilidades não virão, pois estamos em um planeta de provas e expiações, no qual o mal predomina ainda com muita força ou é mais acintoso, mais escancarado. Por isso, é natural que a gente vá se deparar com pessoas que vão querer, de alguma maneira, prejudicar-nos ou ter diferenças com o nosso ponto de vista e isso vai gerar dificuldades para nós. Portanto, mesmo eu decidindo mudar, o meio não vai acolher essa mudança de pronto. Na visão espírita, isso não deve ser relevante para nós, pois não devemos tentar mudar o exterior, somente a nossa postura interna. O segundo ponto é que quando a gente vai começar as mudanças íntimas para tentar de fato se desenvolver espiritualmente, tentar seguir o que o Evangelho diz, a primeira força que surge, simbolicamente, é a de inércia da alma, de manter os mesmos comportamentos e as mesmas posturas perante a existência.

Videira – Isso se relaciona com a figura simbólica de Herodes no Evangelho?

Éderson – Sim, é o grande símbolo do lado obscuro que luta para o Cristo não nascer. Herodes remete a esse movimento íntimo de permanecer e até de matar simbolicamente aquele broto inicial do evangelho. E essa é a inércia da alma da qual falávamos, de permanecermos sempre nos mesmos comportamentos, os quais alimentamos durante muito tempo e a tendência é que a gente continue neles. O Espírito Amélia Rodrigues comenta isso através do Divaldo, de que a dificuldade da reforma íntima também se dá por causa do tempo que a gente alimentou os nossos erros. Então, por exemplo, se eu alimentei durante muitos séculos determinado comportamento vicioso, ao tentar muda-lo, há uma força que eu gerei e sustentei em mim que vai lutar para não ser transformada, para não ser modificada. Amélia vai dizer que o tempo que eu levei alimentando o vício, provavelmente, será o mesmo que levarei para superá-lo. Isso é uma questão de forças, de energias íntimas, de criações íntimas, ou seja, eu criei aquele estado dentro de mim e logo ele tem uma vida momentânea, uma vida fictícia que me incentiva a manter as mesmas posturas e os mesmos comportamentos. Portanto, seguir o evangelho é algo sofrido, tanto por um aspecto externo, de a sociedade não querer, o grupo familiar e de conhecidos não acolher aquela mudança porque daí eu estou destoando da maioria, mas, principalmente, como um reflexo íntimo de não estar acostumado com a nova forma de vida. E isso é retratado nos ciclos evangélicos de Madalena, Paulo, de Pedro, que hora segue o Cristo, hora nega, de Judas que é o amigo do Mestre, mas o trai, os apóstolos que ficaram três anos com ele, mas debandam na hora das dificuldades… Então são vários ciclos que retratam essa nossa dificuldade, de que hora estamos bem, hora estamos mal, hora queremos, hora não queremos, hora estamos com vigor, hora estamos apáticos, esse caráter de dicotomia humana.

Videira – Nesse contexto, como o conceito da “renovação” aparece na filosofia cristã e na espírita?

Éderson – Na filosofia cristã, a renovação é uma ideia bastante presente, principalmente pela própria ideia da “Boa Nova”. Após a crucificação de Jesus, além das próprias lições do Mestre, ecoou a notícia de que Ele não havia morrido. Há várias interpretações do que significaria isso, mas a ideia principal gira em torno da renovação da vida, de que o túmulo não foi o final e que a vida continua. Isso foi um grande alento para a comunidade cristã primitiva, tendo em mente que quem seguia Jesus eram os marginalizados da sociedade, principalmente as meretrizes, as mulheres, as crianças, os idosos e algumas classes masculinas. Por essa razão, a ideia de que após uma vida atribulada e após dificuldades, o Mestre continuou vivendo, ou seja, houve uma renovação de sua existência foi um grande alento para os cristãos e, logo, uma grande força para suportar as dores da vida.

Assim, toda a fé e filosofia cristãs são sustentadas na crença de que algo bom vem depois das dificuldades e que passar bem por essas dificuldades gera benefícios. No tocante à crença espírita, ela retoma essa noção e a explica ao destrinchar melhor o que é a vida do Espírito, descrevendo-a em detalhes e mostrando que, na verdade, o corpo e a vida terrena são simplesmente um instante, uma estadia momentânea, um estágio da vida do Espírito.

Portanto, a renovação na visão espírita, retomando a ideia cristã, é de que a vida é feita de diversas etapas, recapituladas, hora no corpo, hora fora do corpo através da reencarnação e do desencarne. E que, na verdade, nada é definitivo, tudo é momentâneo. Então hora eu estou encarnado, hora eu estou desencarnado; hora eu estou saudável, hora eu estou doente; hora eu estou com a minha família, hora eu estou sem família porque eu desencarnei ou meus familiares desencarnaram… hora eu estou empregado, hora desempregado, e assim compreendemos que a vida é feita de instantes, mas tudo vai se renovando. Por isso, em muitas ocasiões no Evangelho, o símbolo adotado pelo Mestre é o das plantas, dos campos, lavouras e semeaduras porque para um ouvinte agricultor, o campo e a natureza são o símbolo da renovação. Ou seja, uma época eu estou no inverno, na outra é primavera, na outra verão, na outra inverno de novo, são ciclos de renovação.

Videira – É possível identificar na fala do Mestre a questão da reencarnação?

Éderson – Isso é algo controverso do ponto de vista do meio ortodoxo cristão, principalmente protestante e apostólico romano. Mas na visão espírita, para nós, é muito claro e um dos exemplos que usamos é a conversa com Nicodemos. A maioria das linhas cristãs não concorda que Jesus está falando de reencarnação ali, mas para nós é um exemplo claro, visto que ele diz “ter que nascer de novo” e todo aquele diálogo riquíssimo. E nós podemos reforçar essa ideia através de dois pontos: Primeiro, e que Kardec destaca, é que o povo judeu, principalmente os fariseus e os escribas, tinha a crença na vida futura mas não sabiam descrevê-la. A própria passagem das línguas de fogo no pentecostes é um relato da presença da vida após a morte. E no tocante à reencarnação, o segundo aspecto, além deles acreditarem, mas não saberem descrever, é que muitas das lições de Jesus, pra não dizer praticamente todas, só são plausíveis com a ideia da reencarnação. Quando ele nos diz “bem-aventurados os aflitos” ou quando nos exorta a perdoar os inimigos, se não tivermos a ideia clara da reencarnação, esses ensinamentos tornam-se impraticáveis. Por isso, em muitas lições que ele dá, a alma só vai conseguir se desenvolver nelas durante muito tempo de prática e paciência consigo mesmo e com o outro. Por que eu posso perdoar o meu próximo, mas ele começar um processo de modificação só ao longo de séculos, de milênios talvez, porque é possível que ele vá precisar de outros reencontros.

Então a gente vai ver que, na verdade, a grande lição do Mestre é que a reencarnação está ali contida, mas de maneira velada, pois eles não tinham nem uma maneira de descrever esse fenômeno.

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